Absolutamente nada pessoal [2]

Absolutamente nada pessoal

Carta a Tomas Espedal e notas sobre o romance “Leria”
Tradução/Translation: Eliana Pereira

Estimado Espedal,

Há muito tempo que tenho na minha cabeça algumas frases suas. Estas frases tratam do tema da escrita. Não tenho qualquer problema com isso. Com a escrita. Quando escrevo, sinto-me bem. Leio, sinto-me ainda melhor. Mas permanece uma questão:  Quando é que a escrita se torna Literatura? As suas breves afirmações sobre a escrita têm-me ocupado. Durante semanas. Você diz de forma clara que um escritor deve escrever tudo.

O que é a escrita? Nós os escritores somos como todos os outros que escrevem? Somos escritores porque publicamos ou porque escrevemos? A seguinte citação de Thomas Mann é-lhe familiar:

“Um escritor é um homem a quem a escrita causa muito esforço comparando com as outras pessoas.”

Para mim são as duas coisas. Não é um esforço e ao mesmo tempo custa mais se comparar com outros que escrevem.

Não escrevo a tempo inteiro. Sempre a escrever. Não correspondo a este clichê. Não tenho um bloco de notas ao lado da cama. Só esporadicamente é que anoto os meus sonhos. Não tiro notas enquanto cozinho. Eu vivo. Necessito de tempo para escrever. Não porque não o tenha. O tempo deve existir na solidão para que seja capaz de escrever. As palavras não chegam num ato de inspiração. Aparecem na vivência que a Vida possibilita e são escritas quando a Realidade não permite as suas experiências, mas a escrita me conduz de novo à Vida. Os seus pontos de vista sobre a escrita. Nos meus pensamentos recapitulo sempre o que disse sobre este tema porque não tenho nada a contrapor. Preocupa-me que esteja de acordo consigo. E que alguém se consiga comprometer a isso. Não é nenhuma cobardia esta minha determinação pela escrita, é mais a dúvida. Antes que esqueça, aqui onde permaneço, sou um pouco distraído. Sento-me no cais do Sodré em Lisboa. Perdoe-me quando perco um pensamento e volto a ele mais tarde. A conversa não deve ser nada pessoal. Nenhuma palavra mais pessoal. Apenas o suficiente. Cheguei aqui. Há cinco meses. Você não me conhece de modo algum. Cheguei aqui com o meu próprio corpo, deve ser designado assim. Assim pode compreender melhor o que quero dizer.

Paulatinamente, não com o tempo, só gradualmente é que os prédios ganham vida, o meu corpo começa a percorrer as ruas.

Aqui estou em casa. Só aqui. E sinto-me agora, onde me sinto aqui em casa, cada vez mais um escritor. É uma exceção escrever aqui no Cais do Sodré. Habitualmente escrevo em casa. Onde impera a tranquilidade. Na solidão que defendo e que me pertence. Na solidão que protege a minha liberdade. Está profundamente ligado com força. Para evadir, conseguir a solidão e permitir que esta se engrandeça até ao ponto da solidão se tornar tão poderosa que a morte deixa de existir. Com gestos reage-se melhor. É o suficiente para que vire a sua cabeça. Também as palavras, que se ouvem. Também as dos ausentes.

A minha derrota pessoal é a primeira frase. Isto significa que, quando escrevo, a primeira frase precede sempre de outra frase. A primeira frase é arbitrária. Não me quero rebaixar a esta arbitrariedade. Escrever não é algo arbitrário. Quero dar-lhe um exemplo. Comecei a escrever um romance há uns dias atrás e abaixo quero explicar, através de algumas frases:

“O que ela dizia era um aviso para ele. Nem a liberdade nem a solidão por si só eram suficientes para ele. Só a liberdade e a solidão no seu conjunto lhe permitiam ter uma vida. A liberdade e a solidão fundidas num só deviam ser um Deus.”

Esta primeira frase do romance precede de uma outra frase, de uma história não escrita, de um encontro ou de uma situação vivida na realidade ou na ilusão, designamos a isto, algo que que é para ser escrito. E o que é para ser escrito parte da vida? Ou da própria escrita? Como soa esta frase, que resultava ser um aviso para ele? O que aconteceu antes desta frase?

Volto atrás. Recordo-me do que disse sobre os exemplos. Tem toda a razão. Começa-se com Thomas Mann, acompanha-se Marguerite Duras e fica-se com Peter Handke.

Você nunca disse isto. Estou a ser irónico. Mas quis dizer isto de forma parecida. Não queria ficar com Handke. Depois é necessário força. Força que devemos despender para nos levantarmos e escrever. Tudo deve ser escrito. Tem toda a razão. Que leio? Afirmo que tem toda a razão. De fato escrevi, tem toda a razão, devemos e necessitamos de escrever tudo?

Inegavelmente dou-lhe razão. Não podemos evitar o papel dos modelos: a continuidade e a descontinuidade e o desmoronar dos monstros na expetativa na escrita de Thomas Mann. A clareza encobre como forma saudável do patético e intransmutável das expetativas em Duras. O literário Monte Evereste como tema da sensibilidade em Peter Handke.

Apanho o ferry, que me faz atravessar o rio Tejo,….não, navego o oceano acima para escapar à arbitrariedade.

Ah! Agora sei novamente porque sou tão empenhado em utilizar este conceito insensível de

“você tem razão”. Porque para mim a sua perspetiva de escrita vem a seguir. (Quem me conhece, sabe, que é uma mentira, que ninguém está a seguir, nem eu próprio.)

Concordamos que você não necessita ter razão. As minhas observações à sua escrita nesta carta são meras notas de rodapé em relação à sua convicção sobre a escrita.

Já não estou no continente, movo-me no Atlântico no meio da minha derrota pessoal da primeira frase.

“Com isso, que você disse, neste pouco tempo, que devem ter sido aproximadamente duas horas no seu primeiro breve encontro, constrangeu-lhe a liberdade. O que ela dizia era um aviso para ele. Nem a liberdade nem a solidão por si só eram suficientes para ele. Só a liberdade e a solidão no seu conjunto lhe permitiam ter uma vida. A liberdade e a solidão fundidas num sódeviam ser um Deus.”

Ainda estamos na primeira frase. Estou na primeira frase e a derrota ameaçadora invade-me:

“O que dizes mete-me medo. Não nos conhecemos.”

Como é banal. Como a própria vida que é vivida sem liberdade. Esta frase é tão banal. Não gosto dela. Aconselhar-me-ia a eliminá-la? Ah, perdoe-me esta pergunta? Sou responsável por esta frase? Bem, questiono-me? Incomoda-me? Porque é uma frase que alguém a pode pronunciar na vida real. Presumivelmente esta frase será citada cem vezes na vida real.

Uma pessoa – um ele ou ela – pronuncia alguma coisa. Sobre si próprio. Ou sobre os outros?

Começamos com aquilo que já sabemos, mais uma vez.

“O que dizes mete-me medo. Não nos conhecemos“. Soam assim estas frases. “Com isso, que você disse, neste pouco tempo, que devem ter sido aproximadamente duas horas no seu primeiro breve encontro, constrangeu-lhe a liberdade. O que ela dizia era um aviso para ele. Nem a liberdade nem a solidão por si só eram suficientes para ele. Só a liberdade e a solidão no seu conjunto lhe permitiam ter uma vida. A liberdade e a solidão fundidas num só deviam ser um Deus.”

O romance que escrevo chama-se Leria. Em português Leria é um verbo. E está no indicativo condicional do verbo ler. O protagonista do romance chama a mulher de Leria, mas na verdade ela chama-se Valeria.

Lesen significa em português ler. O protagonista não a chama pelo seu verdadeiro nome que é Valeria. Ele chama-a Leria. E ele quer usar um significado de certa forma metafórico para o nosso romance – no sentido de que eu gostaria de te ler. Que paradoxo. Ele dá-lhe um nome inventado para a descobrir, porque ele parte do princípio que nem agora nem mais tarde ou noutro momento da vida virá a descobrir quem ela é, o nome Leria, e ela com a sua convicção fala sobre a identidade dele. Mas não sobre a sua verdadeira identidade. Ela está convencida que com a determinação do “conhecer suficientemente bem” parte do princípio que é capaz de conceber uma identidade quando o conhecer suficientemente bem e há muito tempo. Depois deixaria de ter medo. Diz ela. Ela pronuncia-se no infinitivo, mas usa na realidade o condicional, quando pretende com a sua afirmação: quando nos conhecermos suficientemente bem – então sei quem tu és.

Estamos na realidade da escrita? Sim e deixamos esta observação banal, a opinião, a convicção de que existiria um momento, a partir do qual se é capaz de falar quando se conhece uma pessoa.

Navegamos cada vez mais em alto mar no Oceano Atlântico. Já não se vê o cais do Sodré. Ainda consigo reconhecer o continente no pôr-do-sol de Lisboa. Nas próximas horas e nas próximas frases, após a primeira frase a escuridão vai-se propagar. E mais algumas páginas vamos estar a navegar no meio do oceano envolvidos na história que versa pura e simplesmente sobre o tema da identidade.

Tenho de lhe confessar algo e suponho que esta confissão lhe vai parecer demasiado familiar. É uma ótima oportunidade, agora que estamos no meio do oceano, para voltar ao motivo principal desta carta. A minha confissão é uma excelente ponte para falar sobre as suas opiniões, a última ponte aqui em alto mar, tanto mais que consigo perceber as vigas de aço vermelhas da ponte 25 de abril que está sobre o rio Tejo de forma ténue a partir desta distância no pôr-do-sol quase completo. Você surpreendeu-me com a sua franqueza. Posso citá-lo? Deixe-me primeiro ficar arrependido. Recaí no esquecimento, de um esquecimento que não se consegue encontrar na vida, só existe na Literatura. Peço desculpa pela minha falta de jeito, permita-me uma breve explicação. Queria dizer, aqui devo dar um avanço de páginas e citar Max Frisch: “ Não consigo vivenciar mais experiências, novas experiências consigo ter apenas na escrita.” Agora está tudo virado do avesso. Deixe-me colocar os meus pensamentos em ordem. Você diz que um escritor deve escrever tudo. Até aqui dou-lhe razão. Esta frase parece ser uma banalidade. Não conseguiríamos os dois desvendar o autor desta frase, com certeza esta afirmação não foi realizada por si e muito menos por mim. Parece que esta convicção se consolidou em nós, dentro de nós, os que tentam escrever a vida e a realidade.

Como é que você dizia? “That first sentence must be as hard as steel.”1 É necessário uma primeira frase? Todas as frases que escrevemos são inatingíveis? Se não é possível concretizar na realidade, cada frase do romance deve fazê-lo para que a realidade se transporte para a escrita.

Você percebe a que me refiro. Escrever significa escrever tudo, quando a língua permite colocar tudo por escrito. Confesso inequivocamente que você conseguiu. Existe ainda os modelos principais. Separemo-nos deles. O que é para si Thomas Mann, Marguerite Duras e Peter Handke são para mim: Ludwig Wittgenstein, Max Frisch, Samuel Beckett, Maurice Blanchot.

Mas cuidado! É normal escrever tudo. Não somos Bestsellers. Queremos escrever tudo, e sempre que não o fazemos, ficamos com insónias. Ficamos inquietos. Não nos encontramos na Vida nem para a Vida. Por isso, não me quero tornar repetitivo e exprimo mais uma vez a minha convicção. Quem escreve e tem um tema, já perdeu. Isso não é escrita, escrita é quando se escreve tudo, isso é a escrita da arbitrariedade. Aquilo que deve ser escrito, não é nenhum tema, é a realidade da escrita sem uma imagem. Tudo deve ser escrito, pois se o que se escreve não consegue evocar uma imagem, de forma a trazer essa imagem para a realidade, uma não imagem que nos permite dizer a primeira frase é Literatura escrita.

Permaneci na armadilha. Não encontro sossego. Quero contar. Isso exige que seja bruto. Um grande esforço que despendo continuamente, como pode ser possível que a vida e a literatura se unam na verdadeira escrita da Literatura e como pode ser possível compreender o conceito de identidade na escrita, esta autopiedade, na qual me refugio, não me trouxe nenhuma solução. Não tem dúvidas na sua convicção em relação à escrita?

Não domino a sua língua materna. É uma pena que só consiga ler os seus livros em inglês ou alemão. Aqui em alto mar é mais frio que em Lisboa. Talvez tenha mais sucesso se a partir de agora escrever com palavras claras e frias. É impossível não escrever a primeira frase, pois eu sei que somos contadores de histórias. E a nossa primeira frase (para aqueles que levam a sério, é essencial) é sempre a nossa frase privada e que só a nós pertence. É a escadaria para o inferno da nossa própria vida. Só temos de subir esta escada, literalmente até à primeira frase. Esta primeira frase vai ser sempre conhecida no final do não final, e acompanha-nos, esta frase nunca se conhece na sua totalidade e voltamos a redigi-la. Nunca estaremos satisfeitos quando procuramos escrever tudo.

Na esperança de um dia o poder conhecer pessoalmente, agradeço-lhe a leitura.

Martin Pail

Lisboa 24 de junho, 2015

A tradução em português desta frase: “A primeira frase tem de ser tão dura como o aço. “

theme by teslathemes